segunda-feira, 15 de junho de 2015

Caminho de Santiago: o vento do 25 de Abril


Cantámos Zeca logo a abrir a manhã e ergueu-se vento sibilante a pentear a paisagem verde.


Vento só. Vento livre. Vento vivo.


Sentir o vento é sentir que a Terra vive.

Não vou falar do que se leva do Caminho, porque o Caminho não te dá nada mais do que uma direcção. Cada um segue como quiser. Cada um o faz como pode.
Por cá diz-se que "uma tartaruga leva mais do caminho do que uma lebre". Deve caminhar-se intensa e vagarosamente, como quando se beija alguém.

Quando abri os braços ao vento das zonas altas e descobertas senti-me forte. Entenda-se que, a qualquer arranque, a qualquer reinício de passada me pareço com uma empiriquitada Geisha usando os obokos - aquele calçado de madeira. Passinhos pequeninos e rápidos. Acelerando até planar.

Planar. Hoje pude planar de braços abertos ao vento em harmonia.

Harmonia, pode ser um dos souvenirs que nunca vai estar nas lojas para turistas.

Ouvi o vento em dolby surround. Senti a energia que se ouvia fazer numa central elétrica. Vi as flores a colorirem-se de cores berrantes. Senti-me forte a cada passo. Senti que o caminho já não era de caminhar mas estava sendo de passear. E veio a chuva. E apareceu um café que o vento pode ter arrastado até nenhures. 
Conhecemos Carlos Rios, o homem do caminho. Credenciada celebridade com direito a página no facebook e tudo.
Carlos Rios, vive há 11 anos no caminho. 11 anos pendularmente entre Santiago e qualquer outro ponto do Caminho Português.
Tinha uma paciência divina que usava para fazer umas botinhas inúteis que eram depois vendidas como recuerdos.

Carlos falou-nos de quietude eloquentemente, como quem a vive há 11 anos.
Carlos é português. Um fantasma e uma lenda do Caminho.

Já só faltam 25 km para Santiago. Estamos em Padrón. A certeza é clara: o Caminho não se faz pelas pernas que doem desde o primeiro dia mas com a cabeça. 

Vê-te ao espelho. Por detrás da maravilhosa cara que vestes todos os dias espero que vejas também uma alma.

A tua cara é maravilhosa mas sem alma é um ovo kinder sem surpresa.

Religiosa ou não, a espiritualidade é o centro do que te faz caminhar. E o motor.

(Quando foi a última vez que te deixaste ouvir o vento?) 



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