terça-feira, 9 de junho de 2015


Há uma solidão seriamente alucinante na espera de um homem num cadeirão num bloco de partos.
A Maria dorme serena.
Escuto o dominante bater do coração da Clarinha. O silêncio restante é quase absoluto, só há este som omnipresente do ar condicionado e essa memória de que não estamos sós nos sons que chegam do lado de lá da porta.

A vitalidade deste coração que bate hipnotizante leva-me além e nem o tempo passa nem nós corremos para lado algum.

Do que me lembrei até aqui, neste cadeirão:

DIVINDADE: em poucos outros momentos teremos oportunidade de nos aproximar tanto da divindade como quando nos deslumbramos perante a Criação. [Não nos recordamos o suficiente de como gerar uma vida é surreal!]
Por mais que a inteligência dos homens avance, por mais que a ciência encerre em si os dogmas modernos, o paladar está nesta redução, neste vergar perante a Criação.


FINITUDE: quanto mais me tento fazer alguém, lançar a rede dos objectivos pr'além mais me deixo ficar embevecido com a finitude do nosso controlo sobre a vida.
A Clarinha fintou previsões de médicos, superstições de avós e apostas de amigos. Ser humano é aceitar a permanente finitude perante o tempo, o ritmo e a vontade da Natureza. Ser finito é a vida. Ser finito é a essência da esperança.


DO CORAÇÃO: quando sofremos desgosto de amor andamos a apanhar os caquinhos. Tentamos colar de novo o indomável puzzle do sentimento. Cai-se facilmente no outono de pensar que anoitece cedo e de que a noite será longa sempre.
Quando soube da Clarinha brincava com o Jaime sentindo o coração abarrotado e tive medo que nele não coubesse uma menina... Mas cabe sem que o coração se tenha dividido ou multiplicado.
Será talvez a inexplicável lei do amor: o coração carrega em si o impulso ancestral da vida.

E por falar nisso, a Clarinha nasceu às 22h35, 3.375kg, faladora. E tocaram orgãos de tubos e harpas e sinos e cantaram coros.
E a Maria está bem, depois de um parto mágico, está agora no com passarinhos a rodar na cabeça.
Sabem, tudo isto é mágico e especialmente bonito. E sabemos que em muito o devemos a vocês amigos e amigas que torcem e vivem em comunhão e cumplicidade connosco.
Obrigado também à enfermeira Ondina, quem sabe, sabe (elogio público ao Hospital de Braga) 

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